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“Espero que aprendam a lição”, diz engenheiro norte-americano sobre o incêndio na boate Kiss

Russ Fleming colaborou na revisão da legislação no país após tragédia semelhante à Santa Maria

Em 2003, incêncio na boate The Station matou mais de cem pessoas. Local onde ficava a casa noturna virou um santuário (Foto: Carlos Ferreira / Agencia RBS)

Quase dois meses após a maior tragédia já ocorrida em solo gaúcho, a legislação anti-incêndio do país passa por uma revisão. Comissões na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa estudam como evitar que outros infortúnios aconteçam.

Para reforçar a discussão, políticos gaúchos recebem a visita de especialista internacional no assunto, o engenheiro norte-americano Russ Fleming. Ele participa, nesta segunda-feira, de reunião da comissão da Assembleia Legislativa criada para tratar do tema. Ex-presidente da Sociedade de Engenheiros de Proteção contra Incêndios nos Estados Unidos, Russ colaborou na revisão da legislação no país após tragédia semelhante à Santa Maria, na boate The Station, em Rhode Island, em 2003, deixando mais de cem mortos e 230 feridos.

Um dos pontos alterados na legislação americana é que as novas casas noturnas para mais de 50 pessoas devem contar com sprinklers, também conhecidos como chuveiros automáticos. Agora, o engenheiro vem ao Brasil dividir sua experiência. Na última quinta-feira, ZH conversou com Fleming por telefone. A seguir, uma síntese do que pensa o especialista:

Zero Hora – A boate Kiss, que se incendiou matando 241 pessoas, não tinha saída contra incêndio, nem luzes de emergência. O extintor usado para apagar o fogo falhou. Como o senhor define uma tragédia que acontece nesse contexto?

Russ Fleming – Nós precisamos tirar lições e espero que possamos prevenir tragédias futuras. Você mencionou certas circunstâncias, relacionadas a este incêndio. É preciso dizer que, infelizmente, essas coisas acontecem. Erros humanos são cometidos e, por causa deles, estamos mais preparados e temos chuveiros automáticos e outros sistemas de proteção. Uma das razões pelas quais estou honrado a ir ao Brasil é que nós tivemos um incêndio muito similar ao de Santa Maria há 10 anos. Como na boate Kiss, havia problemas, como material inflamável exposto, superlotação. E ambos estão entre os maiores incêndios do mundo. Com isso, pudemos testar nossas ferramentas e melhorar nossas leis.

ZH – O que é básico na prevenção de incêndio e não pode faltar em casas noturnas?

Fleming – Depois do incêndio em Rhode Island, olhamos para o que aconteceu e tentamos aprender sobre quais mudanças poderiam ser feitas. Nós temos um laboratório governamental que investe dinheiro para estudar o incêndio. Eles construíram uma réplica da área que foi queimada, incluindo a área do palco, e puderam fazer isso porque havia um sistema de televisão interno que gravou tudo na noite do incêndio. Ficou provado que o fogo aconteceu porque a banda estava usando objetos pirotécnicos. Então, recriamos a situação e conduzimos experimentos. Uma das grandes questões levantadas é o que poderia acontecer se houvesse sprinklers. O laboratório do governo, o NEST, mostrou que o chuveiro automático poderia salvar muitas vidas. Essa é uma das grandes lições. Nós realmente precisamos desses equipamentos em prédios públicos para evitar tragédias. Outras lições também são que, obviamente, precisamos ter leis e aplicá-las devidamente e proibir o uso de sinalizadores em situações como essas.

ZH – O que é mais importante: bons equipamentos ou bom treinamento?

Fleming – Obviamente, treinamento é muito importante. Outra recomendação é que deveria ter muitos acessos para saída. No incêndio da boate americana, havia acessos, mas as pessoas não conseguiam se lembrar onde ficava a localização da porta do prédio. Muitos não conseguiam ver a saída. E quando viram, já era tarde demais. Um dos problemas na Kiss é que o acesso à rua estava em apenas uma área. E a recomendação é que exista uma entrada larga e outras entradas laterais, já que, em caso de incêndio, muitas pessoas irão tentar passar ao mesmo tempo. O pessoal da boate deve ser treinado e preparado para ajudar os jovens na hora da emergência.

ZH – Em Santa Maria, civis voltaram ao interior da boate para ajudar no salvamento e acabaram morrendo. É aceitável que os bombeiros tenham permitido isso?

Fleming – Não é o costume nos Estados Unidos. Nós nunca aconselhamos as pessoas a entrar em um prédio em chamas, porque os bombeiros são treinados e entram protegidos para ter certeza que aos civis não corram riscos. Na nossa experiência, eles chegaram no local muito rápido e entraram alguns minutos depois . Quando começaram a jogar água no fogo, já era muito tarde.

ZH – O que mudou na legislação americana depois de Rhode Island 2003?

Fleming – Depois do incêndio na The Station, tornou-se praticamente universal nos Estados Unidos que se você construir uma boate para mais de 50 pessoas, é obrigado a ter chuveiro automático. Para as casas noturnas já existentes, o limite para a instalação de sprinklers é de cem pessoas. Há poucas boates que recebem menos de 50 pessoas, então, quase todas têm esses sistemas automáticos. Também há regras para esses chuveiros automáticos em prédios comerciais, fábricas, bancos, lojas, teatros. Nos estados da Califórnia e Maryland, se você constrói uma casa, você terá que ter sprinklers. Atualmente, é obrigado apenas nestes estados, mas esperamos que a obrigatoriedade se estenda ao resto do país.

 

Como aconteceu

O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, dia 27 de janeiro, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.

Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 241 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridos.

A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.

Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo

 

Fonte: Zero Hora